sexta-feira, 26 de agosto de 2011

É o meu irmão!



Inventam tantas datas comemorativas. Dia dos pais, dia das mães, dia dos namorados, dia disso e dia daquilo. Eu sei que são datas que muitas vezes perdem o sentido afetivo e fica somente o propósito comercial. Contudo depois que tive meu segundo filho passei a desejar a criação de uma outra data desse tipo. O dia do irmão. Que tal?
Acredito que até meu papel como irmã ficou mais verdadeiro depois que passei a acompanhar a relação entre meus dois meninos. O incrível é que mesmo o mais velho sendo uma pessoa com necessidades especiais a relação dos dois está passando por todas as etapas normais. Ciúmes, brigas, proteção, companherismo, disputa;  mesmo eles tendo universos, dificuldades e personalidades diferentes.
O pequeno Vicente observa todo o contexto familiar e a maneira como cuidamos do JV. Acorda o irmão com beijos de manhã chamando-o para tomar café e ir para a escola. Adora  passear na cestinha da bicicleta adaptada do irmão e está sempre disposto a me alcançar roupas, meias, tênis, na hora que estou vestindo o JV e quando ninguém está olhando (nessa hora que você comprova que está tudo indo bem) abraça o irmão sem receio de perder seus cabelos, e diz baixinho: Te amo João.
Infelizmente ele não tem a resposta como gostaria de ter. JV não fala. Aliás, fala somente vovó e vavá.
Numa manhã, tentando reverter a situação de frustação, iniciei o seguinte diálogo:
-Filho, sabia que o João te ama?
Vicente olha para o nada vasculhando seu pensamento.
- Não ama não mamãe. Ele não fala comigo. (nunca esquecerei seus olhinhos tristonhos me contando isso)
Silêncio para mamãe pensar. O que dizer para uma criança de 2 anos que ela seja capaz de compreender?
- Vicente, o João não sabe falar, ele tem um dodói na cabecinha. Por isso não consegue dizer que te ama mas ele te ama, olha como ele sorri para você e fica feliz quando você o abraça.
- O dodói não é na cabeça é no dente! (se referindo a um aparelho expansor que o JV usa nos dentes) E eu também tenho dodói olha!

Não adianta. Só o tempo, a vivência e o exemplo das pessoas da nossa volta é que nos fazem entender algumas situações.
Na escolinha do JV tem somente crianças com algum tipo de deficiência. Lá tem um moço, um homem de 20 e poucos anos com aparência de um menino. Ele se chama Guigo. É o irmão do meio numa família de três filhos homens. Às vezes vou levar o João e encontro algum deles entregando o irmão para as terapeutas. Fico observando a forma como eles se relacionam com o irmão especial. É muito bonito de ver o respeito e a comprensão - permitam-me essa frase manjada.
A mãe deles um dia me contou que quando o mais velho se formou em direito havia uma preocupação de como fariam com a situação pois o Guigo costumava ficar muito agitado com tumulto e palmas. Orientada pelas terapeutas a perguntar ao formando o que ele achava, se Guigo deveria realmente participar desse evento, emocionada, a mãe me contou que ele olhou para ela meio surpreso com o questionamento.
-Como assim mãe? Ele sempre esteve incluído em todos os momentos. Vamos apenas ajustar as coisas mas excluí-lo jamais. Ele é meu irmão e também quero dividir com ele minha conquista.
Eu choro agora mesmo, contando isso para vocês. Os irmãos... eles simplificam tudo. Só precisam crescer  num ambiente em que tratem a diferença com naturalidade,  sem ficar focando e exaltando a situação adversa o tempo todo.
Agora lembro outra situação que aconteceu na família do Gabriel - que possui a mesma síndrome do João. Síndrome de Angelman. A mãe Gladis me contou que quando eram pequenos o irmão mais novo brincava num campinho na frente da casa; de repente, o irmão especial saiu correndo - meio desajeitado,  ao encontro do irmão mais novo e se agarrou na tela pelo lado de fora.
Uma das crianças comentou:
- Lá vem aquele menino louco!
Eu fico aqui tentado imaginar e me colocar no lugar do menino. Como deve ter sido duro para o caçula ouvir isso e ainda ter força para responder:
 - Ele não é louco! Ele é meu irmão!
Virou as costas e com lágrimas nos olhos foi ao encontro do irmão.
Ele tem razão em defender seu irmão. Os irmãos das crianças especiais geralmente são leais, muitas vezes sofrem sozinhos com a incerteza de como agir, com as piadinhas dos colegas, com a ignorância humana.
Temos que estimular as crianças a saberem conviver com todos. Só assim e com diálogo franco e direto elas vão aprender a respeitar todas as pessoas. Crianças aprendem rápido, são curiosas, são espontâneas. Quando você perceber que seu filho fica confuso diante de uma pessoa com deficiência, ou com alguém de outra etnia, ou orientação sexual, esse é o momento de ensiná-lo que somos todos diferentes fisicamente e nos estilos de vida  mas somos todos iguais como seres humanos. Todos nós somos deficientes em alguma coisa. Ninguém é perfeito.
E então, devagar ele vai começar a apreciar e aceitar cada pessoa do jeito que ela é e você estará ajudando a diminuir o preconceito e discriminação do mundo. Além do mais, poderá sentir orgulho ao ver seu filho(a) se formando uma pessoa do bem.
Não é fácil explicar para eles e nem impossível.
Vai ter sempre aqueles pais que vão pensar "O que tenho a ver com isso?Não faz parte do meu universo!"
Meus amigos. Quem tem a bola mágica aí? Não sabemos o dia de amanhã. Quando resolvemos ter um filho não estamos comprando uma propriedade particular. Precisamos guiá-lo e tentar educá-lo para que ele contribua com a evolução humana.
Enquanto isso, vou lidando naturalmente com a vida da minha família  e na medida certa e pontual vou ajudando a construir o entendimento do pequeno Vicente.
E claro, sem deixar de elogiá-lo e beijá-lo toda vez que ele demonstra seu afeto pelo irmão.

-Meu irmão mamãe! O João é meu mano! Só meu. Não fala. Ri. É meu. Irmão.
































2 comentários:

  1. LU! AMEI O TEXTO. TU SABE QUE NUNCA ENTRO E LEIO BLOGS, NÃO SOU MUITO FÃ, MAS HOJE VI O TEU POST E RESOLVI CONFERIR E TIVE UMA SURPRESA.

    ATÉ VOU LÁ DEIXAR UM RECADO PRO MEU IRMAÕ!HEHEHE!

    BEIJO AMIGA
    LARI

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  2. Oi Lú, sei bem como é esta emoção!
    As vezes so o olhar dos dois, ou no meu caso dos três ja diz tudo. É perfeito a sintonia.
    Bjs e parabéns pelo blog. Andreia Curi mãe do Ronan, do Kíron e da Maiara, rs.

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