Depois daquela internação ela chegou a se recuperar bem e aproveitou mais um pouco até o final do ano, mas nos primeiros dias de 2011 ela se sentiu muito mal, foi internada e não saiu mais da UTI. Entrou em coma induzido, inchou, traqueostomia. Acordou, sentou, conversou com mímicas, trocou bilhetes carinhosos com a Val. Tratamentos com fortes antibióticos, organismo debilitado, infecção que foi invadindo todo o seu organismo e ela faleceu. Simples assim?Não.
Ela lutou tanto e mesmo tomada por infecção generalizada ela não queria partir.
A última vez que vi a tia acordada numa tarde quente de janeiro, ela segurava firme minha mão durante as múltiplas tentativas de colocar o cateter para alimentação por sonda. Após as enfermeiras desistirem ela me declarou que estava cansada. Cansada de lutar.Cansada de falta de ar. Cansada do perigo intermitente da morte.
Para distraí-la li trechos de um livro que se chama “O convite” de Oriah Montain.
"Não me importa saber como você ganha a vida.
Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em
satisfazer seus anseios do seu coração.
Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em
satisfazer seus anseios do seu coração.
Não me interessa saber sua idade.
Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor,
pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.
Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor,
pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.
Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua.
O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza,
se as traições da vida o enriqueceram
ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor.
Quero saber se você consegue conviver com a dor,
a minha ou a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.
O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza,
se as traições da vida o enriqueceram
ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor.
Quero saber se você consegue conviver com a dor,
a minha ou a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.
Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria,
a minha ou a sua, de dançar com total abandono
e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos,
sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas,
que nos lembremos das limitações da condição humana.
a minha ou a sua, de dançar com total abandono
e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos,
sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas,
que nos lembremos das limitações da condição humana.
Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira.
Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo.
Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma,
ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.
Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo.
Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma,
ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.
Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia,
ainda que ela não seja bonita,
e fazer dela a fonte da sua vida.
ainda que ela não seja bonita,
e fazer dela a fonte da sua vida.
Quero saber se você consegue viver com o fracasso, o seu e o meu,
e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago
e gritar para o reflexo prateado da lua cheia: "Sim!"
e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago
e gritar para o reflexo prateado da lua cheia: "Sim!"
Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem.
Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero,
exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito
para alimentar seus filhos.
Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero,
exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito
para alimentar seus filhos.
Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui.
Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.
Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.
Não me interessa onde, o que ou com quem estudou.
Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.
Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.
Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo e se
nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia."
nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia."
A parte mais linda dessa história foi o tempo que a tia e minha prima tiveram para se despedir. A velha prorrogação(e dádiva) que poucos ganham na reta final. A preciosidade do tempo dedicado somente aquilo que importa. Hora de perdoar, de demonstrar os sentimentos, de se comunicar pelo olhar. Hora da presença do amor e nada mais. A grande lição.
Três meses depois de altos e baixos, na UTI com infecção generalizada, dois dias antes de sua força esgotar, eu li para ela uma carta de despedida.
TUDO PASSARÁ
Todas as coisas, na Terra, passam... Os dias de dificuldades, passarão...
Passarão também os dias de amargura e solidão... As dores e as lágrimas passarão.
As frustrações que nos fazem chorar... um dia passarão. A saudade do ser querido que está longe, passará.
Dias de tristeza... Dias de felicidade...São lições necessárias que, na Terra, passam, deixando no espírito imortal as experiências acumuladas.
Se hoje para nós, é um desses dias repletos de amargura, paremos um instante.
Elevemos o pensamento ao Alto, e busquemos a voz suave da Mãe amorosa a dizer-nos carinhosamente: isso também passará...
E guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas que não há mal que dure para sempre.
O planeta Terra, semelhante a uma enorme embarcação, às vezes parece que vai soçobrar diante das turbulências de gigantescas ondas.
Mas isso também passará, porque Jesus está no leme dessa Nau, segue com o olhar sereno de quem guarda a certeza de que a agitação faz parte do roteiro evolutivo da humanidade, e que um dia também passará...
Ele sabe que a Terra chegará a porto seguro, porque esse é o seu destino. Assim, façamos a nossa parte o melhor que puderem, sem esmorecimento, e confiemos em Deus, aproveitando cada segundo, cada minuto que, por certo... também passarão..."
Tudo passa..........excepto DEUS!
Deus é o suficiente!
(Emmanuel/ Chico Xavier)
Passarão também os dias de amargura e solidão... As dores e as lágrimas passarão.
As frustrações que nos fazem chorar... um dia passarão. A saudade do ser querido que está longe, passará.
Dias de tristeza... Dias de felicidade...São lições necessárias que, na Terra, passam, deixando no espírito imortal as experiências acumuladas.
Se hoje para nós, é um desses dias repletos de amargura, paremos um instante.
Elevemos o pensamento ao Alto, e busquemos a voz suave da Mãe amorosa a dizer-nos carinhosamente: isso também passará...
E guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas que não há mal que dure para sempre.
O planeta Terra, semelhante a uma enorme embarcação, às vezes parece que vai soçobrar diante das turbulências de gigantescas ondas.
Mas isso também passará, porque Jesus está no leme dessa Nau, segue com o olhar sereno de quem guarda a certeza de que a agitação faz parte do roteiro evolutivo da humanidade, e que um dia também passará...
Ele sabe que a Terra chegará a porto seguro, porque esse é o seu destino. Assim, façamos a nossa parte o melhor que puderem, sem esmorecimento, e confiemos em Deus, aproveitando cada segundo, cada minuto que, por certo... também passarão..."
Tudo passa..........excepto DEUS!
Deus é o suficiente!
(Emmanuel/ Chico Xavier)
Nos últimos minutos ao lado da tia, subi uma escadinha para alcançar o seu ouvido e falei baixinho o que estava sentindo.
"A vida é um ir e vir. Isso é desígnio de Deus. Hora de partida também é hora de chegada. Paz. Chega de sofrer...Voe passarinho, voe para teu ninho. O ninho de Deus."
É impressionante como a vida e a morte estão dividas por uma linha tênue.
Então, você se dá conta que a vida não é nada mais que um palco, um cenário. E que a cortina um dia ou outro vai descer e o espetáculo vai terminar.Exatamente como na cerimônia de cremação da tia Neki. Não podemos controlar a duração. Só o que podemos fazer é subir lá e deixar acontecer.
Aprendi que o sucesso de uma vida não é medido pelo quanto você ganhou na bilheteria do seu espetáculo. A sua vida teve sentido e propósito se você deixou a marca registrada na alma da sua platéia. E o que se leva dessa vida é o amor que conquistamos dos outros.
Definitivamente, três meses depois da sua morte, certifico que a tia conseguiu essa façanha. Na voz ainda entrelaçada do meu menino caçula surge a pergunta:
Definitivamente, três meses depois da sua morte, certifico que a tia conseguiu essa façanha. Na voz ainda entrelaçada do meu menino caçula surge a pergunta:
- Mamãe, cadê a tia Neki?
Desprevenida com a pergunta, fico com nó na garganta e ele mesmo se responde:
- Está dormindo com o papai do céu e as florzinhas caindo na cama dela.
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